Foi só a minha avó chegar aos 74 anos que ela passou a se desfazer de várias coisas que eram dela. O meu irmão ficou com uma coleção de discos e para minha irmã deu um jogo de chá de porcelana que era usado todos os domingos quando a família se reunia.
Já a minha mãe ganhou um quadro que enfeitava o corredor e para mim, uma corrente de ouro com medalhão que ela nunca tirava. Minha avó apenas disse que estava se "desapegando" e eu nem perguntei nada.
Só que esse tal do medalhão acabou me fazendo refletir. O que levou minha avó a se desfazer de uma coisa tão pessoal e que usava diariamente? Uma hipótese era ter mais espaço em casa. A outra: ela queria decidir o futuro desses fragmentos da sua vida.
Acontece que para a psicologia, esse tipo de comportamento representa muito mais do que simplesmente uma limpeza. E um estudo de sociólogo da Universidade do Kansas se virou para os idosos e passou a analisar como é a relação deles com os próprios pertences, surgindo a expressão "comboio material".
O termo nada mais é do que aquele grupo de objetos que nós guardamos com o tempo e que vai crescendo através das funções que desempenhamos. E reduzindo de quantidade a medida que esses papéis se transformam. Não podemos, assim, os classificar de "coisas", pois é um registro vital e cada um desses pertences conversa com uma época ou relacionamento que temos.
Vamos pensar pegando os itens que mencionei. Os discos remetiam às manhãs de sábado com o rádio na cozinha. Já os 30 anos de jantares com a família têm ligação com a porcelana. Por fim, o medalhão que minha avó tanto usou por anos e anos acabou se ligando à própria imagem dela.
Analisando as pessoas a partir dos 60 anos, esse grupo sabe que grande parte dos seus objetos é totalmente desnecessária, segundo estudo do Kansas. O desapego só é difícil de acontecer por conta da relação emocional que cada um desses pertences reúne.
Mas acontece que certa hora a visão que a minha avó tinha mudou. Ela não pensou mais na relação que tinha pelos pertences e quis pensar qual seria o futuro de cada um. Não foi um "descarte" e sim uma, digamos, "colocação" de maneira intencional.
Tal atitude conhecemos como "seletividade socioemocional". Estudos de Stanford apontam que quando notamos que o tempo tem um prazo de vida aqueles objetos que têm um significado emocional se sobressaem frente à exploração.
Não é o caso de dizer que estamos remoendo a morte, e sim que diante de um tempo mais curto de vida passamos a questionar "eu ainda uso isso?" para "quem deveria ficar com isso?". O ato é de generatividade e não de acumulação.
Responsável pelo estudo humano durante a vida, o psicólogo Erik Erikson classificou esse comportamento de "o desejo de contribuir com algo que sobreviva a você". Para alguns, se transforma em um trabalho voluntário ou de mentor. No caso da minha avó foi a herança do quadro.
E as pesquisas reforçam o que a minha avó parecia saber de maneira instintiva. Reforçamos isso porque a revista "The Gerontologist", em 2023, ouviu pessoas da terceira idade haviam escrito seus legados de valores, na visão dos estudiosos: seja uma carta ou documento que passa lições de vida e crenças ao invés de bens materiais.
Dessa forma, várias vezes se indicou que o tinha importância nunca era o objeto em si, mas sim o fato de ser lembrado e valorizado por quem se ama. Um dos idosos ouvidos apontou tal atitude como a chance de expressar alguma coisa fora de um testamento tradicional, que fica preso a bens materiais.
Um segundo classificou como uma maneira de se fazer notar. E nesse caso um objeto físico tem chance de ter o mesmo propósito caso quem esteja doando escolher a pessoa mais ideal para receber tal bem.